Quando se vive numa ilha (sou açoreano, por isso digo-o com propriedade), na grande maioria das pessoas, vive-se com desejos contraditórios.
Aprende-se a gostar e até, por vezes, necessitar do cheiro do mar, da insularidade que isso representa, da liberdade a que o mar aberto nos transporta em termos de ilusão e pensamento.
Mas esse desejo de liberdade que nos acalenta, por outro lado também nos impele com rumo ao desconhecido. Impele-nos em busca de algo maior da nossa existência.
E depois, quando finalmente o buscamos e saímos da ilha, vivemos constantemente com a sua recordação, o seu cheiro, a sua nostalgia e consequente desejo de a rever, experimentar e sentir.
Engane-se quem pense que este sentimento de constante insatisfação ou contradição de sentimentos, desaparece quando voltamos “a casa”, ou seja, à ilha.
Isto é um sentimento que perdurará por toda a vida, nesta dicotomia complicada de enquadrar e contentar sentimentos contraditórios que é, saudades da ilha e depois, quando lá estamos, já nos sentimos cidadãos do mundo com a urgência de “galgar estrada” novamente rumo à outra vida mais “ampla” que já conhecemos e detemos.
Uma vez ilhéu, para sempre ilhéu.
Mais do que um estado físico, é um estado de espírito, o qual potencia as mentes descobridoras de novos mundos ou realidades. Numa forma tão natural, como estar à beira mar e sentir o cheiro do mar, para depois avançar para a imensidão da terra, saindo da nossa origem.
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